29.4.11

Psicologia Transpessoal. Breve Introdução (com comentários)


http://grupopapeando.wordpress.com/2009/08/29/psicologia-transpessoal/



burne32
Pan e Psiquê” por Sir Edward Burne-Jones(1833-1898)
*Por Alexandre Pedrassoli - com modificações de Tiago Tatton
Em outros posts, já falei sobre a chamada "Psicologia Transpessoal". Atualmente, defendo a idéia de que a Psicologia Transpessoal foi superada. Isso não implica, contudo, dizer que está "morta", mas que seu corpo teórico se encontra agora submetido a um rigor científico mais adequado e a desenhos de método mais modernos. As pesquisas em saúde e espiritualidade e a psicologia anomalística são exemplos desses desdobramentos contemporâneos. Outrossim, é sempre válido voltarmos para os primórdios do movimento. Vamos embarcar nessa viagem?
A psicologia, uma ciência bastante recente em termos históricos, ainda está à espera de uma unificação, uma lei geral que coordene suas diversas visões, por vezes antagônicas. Alguns autores admitem inclusive a existência não de uma única disciplina chamada psicologia, mas de diversas psicologias. Realmente, as diversas abordagens psicológicas, como a psicanálise, o behaviorismo e o humanismo, entre outras, divergem em sua essência, já que apresentam diferentes visões do ser humano. São portanto, incompatíveis, desde seus pressupostos mais elementares.
Pode-se dizer que a psicologia transpessoal é a primeira tentativa de integrar as diferentes visões de homem em uma visão mais ampla e abrangente, onde as divergências de opinião não sejam mais vistas como antagonismos, mas como visões complementares e não-excludentes sobre o mesmo objeto de estudo: o ser humano. 
O termo "transpessoal" significa “além do pessoal” ou “além da personalidade”. Utiliza-se esse termo porque a psicologia transpessoal ocupa-se de questões que estão "além da esfera do ego". A abordagem transpessoal procura integrar em sua visão todo o potencial humano que está ainda por desenvolver. (A psicologia positiva e a psicologia anomalística são desdobramentos modernos dessa visão - grifo meu). Essas capacidades potenciais estão relacionadas à existência de "estados alterados de consciência", ainda pouco estudadas por grande parte da comunidade científica. O caminho para atingir esses estados é o caminho da autotranscendência, ou superação de uma visão ligada apenas ao ego individual. Daí os termos: superação do ego, além do ego, trans-ego, transpessoal. Essa visão, contudo, não significa uma "espiritualização da psicologia", mas um caminhar da psicologia em direção ao fenômeno conhecido como "espiritualidade" - grifo meu).




Carl G. Jung e William James já tinham trilhado caminhos nesta direção e, especialmente, James tem sido recuperado por estudiosos contemporâneos. Poucos sabem, mas William James pesquisou profundamente sobre temas como mediunidade, transe, possessão, hipnotismo, etc. Aliás, o campo chamado "psychic research" antecede, até mesmo, a psicologia transpessoal.
                       
                               Jung
James
  
A psicologia transpessoal é também a primeira corrente da psicologia a considerar expressamente que o homem possui uma dimensão que denomina "espiritual". Chega a ser uma ironia que a psicologia, que adotou uma palavra que significa “estudo da alma” para definir a si própria (do grego: psykh(o) = alma e logía = ciência, estudo sistemático), não tivesse até então se interessado em estudar mais detidamente a espiritualidade humana. O Prof. Dr. Elias Boainain Jr., em sua tese de doutorado sobre as dimensões transpessoais da psicologia rogeriana (veja Carl Rogers), fala-nos sobre a espiritualidade como um dos objetos de estudo da psicologia transpessoal:
A espiritualidade, ou a dimensão espiritual do homem [...] identifica o Movimento Transpessoal como a primeira corrente da Psicologia contemporânea que dedica atenção sistemática e privilegiada à dimensão espiritual da experiência humana, até então ignorada, negada, negligenciada ou reduzida a derivações secundárias de outras faixas inferiores do ser, como a sexualidade e a agressividade sublimadas, por exemplo. O próprio uso mais ou menos freqüente e generalizado do termo espiritual que os transpessoais fazem, tomando emprestado à Religião este e outros vocábulos, na falta de termos próprios na tradição psicológica ocidental, fala-nos do desinteresse da Psicologia pelo assunto. (BOAINAIN JR., 1996)
Histórico
Maslow
É de praxe fazer a divisão da psicologia em quatro grandes correntes, ou “forças”. A Primeira Força é a abordagem comportamental ou Behaviorismo. A Segunda Força é a Psicanálise, fundada por Sigmund Freud e a Terceira Força é a Psicologia Humanista. A Psicologia Transpessoal surgiu então com a proposta de ser a Quarta Força da Psicologia. De modo diferente das 3 forças que a antecederam, a Psicologia Transpessoal não aparece com contestação das correntes já vigentes, mas como uma evolução natural da Terceira Força, a Psicologia Humanista. De fato, é de dentro do movimento humanista que surgem alguns dos “fundadores” do movimento transpessoal. Dentre eles, destacam-se Abraham Maslow (1908-1970) e Antony Sutich (1907-1976). Em seu livro Introdução à Psicologia do Ser, na edição de 1968, Maslow aponta para o surgimento da Quarta Força:
Devo também dizer que considero a Psicologia Humanista, ou Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Força ainda “mais elevada”, transpessoal, trans-humana, centrada mais no cosmos que nas necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade, da individuação (…). (MASLOW, 1998, p.ii).
Em 1967, um comitê liderado por Sutich e do qual participaram nomes como James Fadiman, Michael Murphy, Miles Vich e Sidney Jourard, passa a reunir-se para organizar a publicação de uma revista de Psicologia Trans-Humanística, primeiro nome dado à nova abordagem. Em 1968, o mesmo comitê, com a participação de Viktor Frankl e Stanislav Grof, mudam o nome para Revista de Psicologia Transpessoal (Journal of Transpersonal Psychology) e a revista é lançada em 1969. É a partir de então que o termo “transpessoal” passa a ganhar força. Em 1972, funda-se a Associação de Psicologia Transpessoal (Association for Transpersonal Psychology). Marcia Tabone relata esse período inicial:
Um dos primeiros livros
a falar sobre Transpessol
Teorias orientais da personalidade
Um clássico

Durante os dez primeiros anos de existência da Association for Transpersonal Psychology, houve uma rápida evolução e a perspectiva transpessoal transcendeu os limites da Psicologia, da Psiquiatria e especialmente da Psicoterapia. As descobertas revolucionárias de outras disciplinas, como a Física quântica relativista, a teoria dos sistemas, a Parapsicologia, a Holografia, etc., confirmaram e fundamentaram as constatações apresentadas pelo movimento transpessoal. (TABONE, 1988, p.99)
Do surgimento do movimento até os dias de hoje, nota-se que houve uma mudança de ênfase. Originalmente entusiasmada com os chamados “estados alterados de consciência” (atualmente denominados “estados incomunss de consciência”), passou gradualmente a procurar uma visão integradora, que procurasse absorver as teorias antecessoras e dar um corpo único à psicologia, de acordo com a nova visão de homem. Autores como Roberto Assagioli, com sua Psicossíntese e Ken Wilber, com a teoria do Espectro da Consciência que resultou na sua Psicologia Integral, colaboraram para criar modelos abrangentes da consciência humana, tentando englobar as demais correntes psicológicas.
A Psicologia Transpessoal observou também que alguns estados comumente classificados como “surtos psicóticos” se assemelhavam às experiências místicas de vários povos, de diversas linhas religiosas e espirituais. Passou então a considerar que alguns desses “surtos” PODEM SER, na verdade, experiências de transcendência ou de ampliação de consciência. Assim, nem toda a experiência de "surto", deve ser classificado como patológica, bem como nem toda a experiência "espiritual" deve ser classificada como saudável. Stanislav Grof chama esses estados de “emergência espiritual”, e ocupou-se de estabelecer critérios para diferenciá-los dos surtos psicóticos. Essas “experiências culminantes”, segundo a terminologia de Maslow, são assim descritas por Grof.
Sentimentos de unidade com todo o universo. Visões e imagens de épocas e locais distantes. Sensações de vibrantes correntes de energia percorrendo o corpo, acompanhadas de espasmos e violentos tremores. [...] Vívidos vislumbres de luzes brilhantes e das cores do arco-íris. Temores de insanidade, e até de morte, iminente. (GROF, 1989, p.23)

Segundo a Associação de Psicologia Transpessoal, estes são, entre outros, os objetos de estudo dessa associação:
• Psicologia e Psicoterapia
• Meditação, caminhos e práticas espirituais
• Mudança e transformação pessoal
• Pesquisa da consciência
• Vício e recuperação
• Pesquisa de psicodélicos e estados alterados de consciência
• Morte e Experiências de Quase-Morte (EQM)
• Auto-realização e valores superiores
• A conexão mente-corpo
• Mitologia e Xamanismo
• Experiências culminantes
Atualmente, a Psicologia Transpessoal no Brasil encontra ainda resistências junto ao meio acadêmico, embora um número crescente de trabalhos nessa linha venha sendo produzido. Poucos cursos de graduação em Psicologia oferecem a disciplina de Psicologia Transpessoal, embora haja um gradual crescimento na oferta de cursos de especialização nessa área. Nos Estados Unidos, há vários anos, já existe a especialização em Psicologia Transpessoal, sob diversos nomes. Um desses cursos em funcionamento é o de Psicologia Integral, idealizado por Ken Wilber.
Destaco aqui os estudos de um pesquisador brasileiro, o médico psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, Phd, que está se dedicando, há anos, ao estudo das relações entre saúde e espiritualidade. O seu grupo,o NUPES/UFJF, tem publicado artigos de qualidade em revistas internacionais de alto impacto científico. (http://www.ufjf.br/nupes/)

*Alexandre Pedrassoli é Psicólogo graduado pela Universidade Metodista de São Paulo e pelo Centro Universitário Salesiano de Lorena, com especialização em Psicobiofísica pela Universidade de São Paulo (USP) e Pineal Mind pelo Instituto de Saúde. Atua como psicólogo clínico e instrutor de cursos na área de psicologia e de autoconhecimento.
* Tiago Tatton é Psicólogo graduado pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Possui especialização e mestrado em Ciência da Religião - UFJF.

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