4.11.11

enfim: o budismo é um ateísmo? Resposta definitiva!

atualizado em 10/02/2012

...a frase abaixo não responde à pergunta
do tópico, mas sugere caminhos...

Não acredite simplesmente. Use a RAZÃO!

Depois desse típico ceticismo budista (conceito de ehipassiko), devo afirmar que a pergunta sobre o ateísmo no budismo não é tão simples de responder, especialmente se tentamos dar um tratamento filosófico a ela. Digo, um ocidental com algum conhecimento em filosofia tentando refletir essa problemática. Deste ponto de vista, os contornos ficam sutis e complexos.

A princípio são muitos os "budismos" ainda que, por certo, guardem uma unidade fundamental com os ensinos primeiros de Buda, contidos no cânone pali. Essa diversidade abre vertentes e possibilidades imensas de diálogo com o tema do ateísmo. Como exemplo, cito Aqui, meu grande amigo Schubert e sua defesa de um budismo meio teísta e aqui, o grande Padma Dorje defendendo (baseado no B. Alan Wallace) um budismo ateísta.

Além disso, o conceito de Deus, como usualmente nos é transmitido (de modo judaico-cristão-grego), é severamente afetado por uma longa história de querelas teológico-filosóficas (O Wallace fala do Erígena, por exemplo, em seu texto). Essas querelas são tão longas e complexas que não caberiam nos servidores da Google. Tudo isso faz com que a transposição desse termo - DEUS (ou Criador, como prefere o Padma) - para dentro de um contexto absolutamente diverso (o budismo) seja um contrabando fadado ao malogro. O que sobra são umas confusões difíceis de desatar, especialmente ao leigo

Deus - papai-do-céu - "mais ou menos assim"
Mas...sem desânimos! A princípio, como meu tempo é curto, vou traduzir algumas passagens da Wikipedia (inglês) e da Britannica sobre o tema. No geral, o tópico nestes sites está razoável (bem ocidentalizado). Faço algumas adaptações e correções, como de praxe.


DEUS NO BUDISMO - Não é bem assim...

O BUDA, durante sua fase ascética

A refutação da noção de um Deus supremo, Criador ou um motor primeiro é visto por muitos como uma distinção fundamental entre o budismo e outras religiões. No budismo, refutar Deus não é objetivo central, mas Buda reflete sobre a questão. O budista, ou o sistema budista, não trata do conhecimento e obediência aos ensinamento de algum "Deus" onipotente ou ex-nihilo; muito menos de seguir, categoricamente, algum "livro sagrado". De modo geral, o budismo pretende servir como uma "filosofia de vida" que conduz a uma experiência capaz de alívio completo dos sofrimentos. Esse "alívio" é conquistado através de etapas (nem sempre) onde "estado psicológico" peculiares, insights, modificam a experiência usual do sujeito frente à realidade. Essas experiências não possuem nada possuem de "sobrenatural".

Outrossim, devemos compreender que no budismo, assim como em outras tradições, temos diversas ramificações e sincretismos. O budismo Theravada (dos anciãos) é usualmente considerado uma forma de budismo mais estrita aos ensinamentos do cânone pali. O Budismo Mahayana ("veículo grande" - que engloba vários "budismos mais modernos") são uma forma mais "colorida" e "rica" de budismo, fruto de diversos sincretismos culturais, bem como adições de novos textos sagrados. O budismo tibetano, do Dalai-Lama, por exemplo, fruto destes sincretismos, é uma foram de budismo menos afeita aos tipos "ateístas", "theravadas", posto que um mundo de "deidades" (e não DEUSES!) - seres que atingiram a iluminação, e outros mais, podem auxiliar os humanos e animais - estão presentes.

difusão do Budismo
O "Budismo Terra-Pura", outra forma mais moderna de budismo, por exemplo, pode ser considerado com uma certa inclinação "teísta". Ainda assim, essa é uma generalização tosca, que serve apenas para propósitos didáticos, e não deve ser tomada literalmente. Para os budistas com alguma realização e estudo é claro que estas "entidades" são projeções mentais impermanentes, qualidade que as afastam de uma classificação "divina", onde realidade e permanência são pré-requisitos.

 
Budismo Terra-Pura - o "deus" Amitabha e seus fiéis abaixo

Outro culto com certos contornos "teístas" é aquele a Kuan-Yin, uma deidade feminina. É um culto muito comum em diversos países do sudeste asiático e na China. Nestes países, está associada às características femininas da maternidade e proteção. Na China. sua figura está  ligada milenarmente, de modo bastante forte, à misericórdia. No Japão a representação budista da misericórdia tem características femininas predominantes, sendo conhecida como Kannon Bosatsu. No budismo tibetano recebe o nome Chenrezig, e tem características masculinas predominantes.

Aparecida
Do ponto de vista mais popular, podemos associar sua imagem com a de uma Madona, ou seja, uma santa mãe que por todos olha e cuida. Muito parecido com o culto a N.S. Aparecida, entre os católicos. Perceba a semelhança.
    

Kuan Yin 
Deste modo, as "deidades" no budismo se assemelham muito mais com os "santos" na tradição cristã do que com a figura divina - um ser soberano superior a todos - o Demiurgo platônico. As "deidades", assim como os "santos" podem até "interceder" pelo indivíduo. No caso dos "santos", essa intercessão precisa do aval de Deus; nas "deidades" budistas, não.

Mahasthamaprapta Amitabha Avalokitesvara, china Custom printed Mahasthamaprapta Amitabha Avalokitesvara
"deidades" - seres que atingiram o nirvana e que podem auxiliar na caminhada dos mortais. Parece próximo do conceito de "santos" no cristianismo. Na imagem, à direita, Avalokiteshvara, umas das mais cultuadas "deidades".

Sim, mas estamos falando aqui do budismo Mahayana, em suas diferentes manifestações. Até mesmo o Zen, que prima por ser um tipo de budismo bastante "límpido", digamos assim, trabalha com uma metafísica que dificulta uma classificação óbvia entre TEÍSMO ou ATEÍSMO. Ao se afiliar aos conceitos de "Shunyata" (vacuidade) e "Dharmakaya" (corpo do Darma), podemos especular uma espécie de AMOR, COMPAIXÃO e BONDADE de base como potências divinas, sempre presentes, ocupando todos os espaços e momentos. Temos aí uma espécie de panenteísmo budista, filosoficamente dizendo (e forçando a barra). O SER, a base de tudo, seria a fonte de onde emanam as qualidades supra-citadas (ou aquilo que está ainda além - inefável).

Assim, entre os budistas, não há consenso quanto à pertinência dessas definições. Alguns acusam tais definições como "essencialistas" o "substancialistas", e as classificam como deturpações do pensamento budista original - esse sim ateísta.

O QUE TEMOS COMO CERTO é que Sidarta Gautama, em geral, reprovou a idéia de um DEUS criador do universos/almas e com uma existência intrínseca e imutável. Para Buda, mesmo os seres "divinos" estão sujeitos à mutabilidade. Segundo o Mahayana, os budas não passam de projeções da mente, sem realidade absoluta e indistinta dos demais fenômenos. Sua realidade è relativa. São diversas as passagens originais do sutras onde podemos perceber isso. Em algumas passagens antigas, Buda acusa, suavemente, as pessoas que acreditam em um Deus de fazerem pouco uso de seu raciocínio. Não há, para Buda, muito sentido em perpetuar uma crença teísta.

Tais definições não podem ser correlacionadas como o Deus judaico-cristão, já que a esse é imputado uma realidade substancial e imutável.

Segundo o pensamento de Buda, e não dos budistas (em geral), a existência de Deus e tão improvável quanto para Richard Dawkins. A diferença é que Dawkins, através de uma sequência de raciocínios, tem certeza que Deus não existe  e Buda sugere, através de sua experiência, que sua existência seja pouco provável.

“Muitos nascimentos atravessei no ciclo das vidas e das mortes; em vão procurei o arquiteto da casa (da vida e da morte). Que miséria nascer e renascer sem fim! Conheço-te agora, ó arquiteto (desejos), e não mais construirás a casa. Quebradas estão as vigas (paixões) e desabou a cumeeira (destruída a ignorância). Livre está a minha mente, pois cheguei à extinção dos desejos, ao imortal Nirvana”. (Dhammpada, af. 153-154). 


O BUDISMO é ATEÍSTA? 

Estritamente falando, SIM !!!!

MAS...É POSSÍVEL UM BUDISMO TEÍSTA?? Não, a não ser através de uma leitura "distorcida", política, para agradar "a gregos e troianos"! Mas é preciso definir isso muito bem antes de qualquer conversa

ESPERO TER AJUDADO!

Um comentário:

Hilton Soares disse...

Olá Tiago, parabéns pelo artigo.
Mas discordo um pouco principalmente do final...
Dalai Lama quando perguntado se acredita em Deus, respondeu que "se tratando de um poder maior, então sim".
Agora em se tratando da sua ultima colocação:
"MAS...É POSSÍVEL UM BUDISMO TEÍSTA?? Não"
Bom, se Buda deixou essa questão aberta como vc mesmo colocou, e o próprio Buda deixou claro que se empiricamente algo for provado, mesmo que contrarie seus ensinamentos e conclusões, esse fato deve ser aceito.
Portanto acredito que o Budismo pode se tornar Teísta ou Deísta mediante as provas...