6.3.16

A diferença entre o "Mindfulness-de-verdade" e o "Mindfulness-Tapioca"

Em outros posts já falei sobre aquilo que chamo de Mindfulness Tapioca (leia aqui). Basicamente é o Mindfulness fake, aquele que promete te fazer relaxar e sorrir. Aquele que te promete "um dia de paz eà la esoterismo que mescla Buda com falta de compromisso ético e científico. É também esse Mindfulness-money que tá exclusivamente a serviço da GRANA! Tá cheio de coach e toda-a-sorte-de-gente que está trabalhando (ou está em formação!!!) compremetida com essa Tapioca. Ela tá na moda, vende e é bonita! MAS É MENTIROSA, e pode até ser anti-ética. Vira uma Tapioca azeda por dentro, mas bonita por fora.
alegria". Tá cheio por aí - no Brasil e o exterior. Esse Mindfulness Tapioca é cheio de promessa de cura, quase como um exorcismo neo-pentecostal moderno. Tá amarrado em nome de Buda!!! É também esse Mindfulness

A primeira capa de revista brasileira sobre Mindfulness não foi muito diferente da capa da TIME de
2012. A diferença é que na capa da revista brasileira colocaram a Fernanda Lima, e não uma modelo genérica. Mas está lá a mesma cara de serenidade com uma sorriso leve no canto da boca. É uma pseudo-simulação dos bustos orientais de Buda. A chamada da capa não ficou para trás: O PODER da nova meditação!! Quanta Tapioca gostosa. Tem meditação, Fernanda Lima, batom rosa e sorriso discreto.
Mas o Mindfulness-de-verdade não é  (sempre) assim. Em geral, ele dói.

Lembro-me agora do amigo Marcelo Oliveira, grande sunshine!, exímio professor de Mindfulness, falando de como sua prática se intensificou quando, em certa viagem ao exterior, foi acometido por um surdez temporária que, dias depois, somou-se à centenas de picadas de pulga. OPA!!! Não tem nada de "LEGAL" em ficar surdo e com o corpo ardendo como fogo, tem? Pois é. Aí está o segredo do Mindfulness-de-verdade. E ele está no extremo oposto do sorriso no canto da boca. Ele começa com surdez e coceira. 

E, antes que me ataquem, quero dizer que SIM - pode haver - Mindfulness-de-verdade em coisas belas e serenas, como um cantar de pássaro ou o desabrochar de uma flor. PODE HAVER Mindfulness-de-verdade na contemplação de um lindo céu de outono. Claro, se estamos plenamente atentos àquele momento, com a mente repousada naquele gozo, de modo não-julgador, como não haveria de ser? Só que PODE HAVER não é o mesmo de SEMPRE HAVERÁ.

Aliás, PODE HAVER leveza, beleza e suspiros de prazer em vários momentos da vida, mas uma coisa é certa: SEMPRE HAVERÁ insatisfação e incômodo. Estou mentindo? Sempre haverão pulgas e ouvidos surdos. Sempre haverão engarrafamentos, topadas em quinas de móveis e cheiros indesejáveis. Sempre haverão contas bancárias negativas, amores desfeitos e trabalhos estressantes. Sem querer plagiar o Sidarta, sempre haverá dor, envelhecimento e morte. E isso é muito sério, não é papo de simpatizante do Budismo, não. 

E é nessa sempre presente insatisfação que encontramos o tesouro precioso de Mindfulness. É lá, onde o calo aperta, que a grande lição desabrocha. Estou passando por uma dessas grandes lições nos últimos dias. Olha, não é nada demais, mas é um grande ensinamento.

Minha esposa quebrou o pé no meio do carnaval. Na realidade ela quebrou um ossinho pequenino que fica debaixo do dedão, chamado sesamóide. Com isso, ela só pode andar com uma botinha que a impede de fazer muitos movimentos. Ela anda devagar, com a ajuda de uma muleta e, invariavelmente, sente alguma dor. Com isso, tudo está mais lento - bemmm mais lento. Eu preciso alcançar tudo para ela. Eu preciso lavar a louça (sabe como odeio isso? Veja aqui). Eu preciso fazer a janta. Eu preciso trocar o lençol. Eu preciso ficar de motorista dela (ela não pode dirigir). Quando estou na cama, jogando meu videogame, tenho que levantar para alcançar os óculos que ela esqueceu na sala. Quando deito para dormir tenho que descer até à garagem para pegar no porta-malas do carro a mochila da escola de nossa filha. Mais que tudo, eu PRECISO ESPERAR.

Sentiu qual é? Sabe o que isso significa para uma pessoa ansiosa? Tudo mais devagar, lento, lento. Minha esposa precisa de mim. Eu sei que devo ajudar, e quero ajudar. Acontece que me deparo com minhas "pulgas mentais". Observo minha preguiça, meu egoísmo, minha má-vontade, minha mesquinhez, minha irritação, minhas frustrações, meus falsos-ideiais, meus inúmeros e repetitivos auto-julgamentos, a velha amigo ansiedade, tudo junto! Observo todo o esgoto mental que, neste caso, torna-se meu tesouro precioso para a prática de Mindfulness. Onde eles vêem esgoto eu vejo água cristalina. Onde vêem podridão, eu vejo um diamante. É ali, onde reside tudo aquilo que somos ensinados a não olhar, que está o tesouro de nossa prática. É para lá que eu olho. É lá, na minha dor, que eu posso crescer e aprender sobre mim. Mas tem um segredo.

É um olhar diferente. É carinhoso e paciente. Olhar para tudo aquilo que é - de fato - difícil em você mesmo é um imenso desafio, e precisa de carinho. É um olhar cuidadoso e tolerante. Ele olha com dor, é certo, mas fazendo da dor uma mão amiga. Ou você acha que é fácil se descobrir com propensões egoístas? mesquinhas? Não é fácil. E os julgamentos? "Oras, você, professor de Mindfulness, sendo um grande preguiçoso? E essa ansiedade, quando você vai se curar dela?" SIM!! Um grande ansioso e preguiçoso! E aí? Segura essa peteca! O que faço com esses pensamentos? Não é simples, mas eu os convido para o meu colo; os convido para tomar chá.

E aí o milagre acontece! Pufffffffff! Todas essas propensões perdem força e se transformam em não-mesquinhez, não-preguiça, não-julgamento. Eu simplesmente levanto a bunda da cama (tá, meio contrariado, mas levanto) e alcanço os óculos da minha esposa na cozinha. Não sem dor, não sem julgamento. A diferença, no entanto, é que eu observo e acolho cada dor. Dói, aperta, coça, mas eu faço. Faço porque assim me sinto melhor, em sinto livre. Abraço a dor e a frustração e - por mais estranho que possa parecer - elas deixam de me guiar. Ao invés de ser arrastado pela dor, eu caminho junto com ela. Mindfulness é caminhar lado-a-lado com a insatisfação e, assim, crescer, para si e para o outro.

Agradeço imensamente a minha esposa por ter quebrado o pé. Agradeço por essa situação incômoda ser meu grande professor nos meses de fevereiro e março de 2016. 

Letícia, te amo. 

Um comentário:

Henrique da Silva disse...

Belo texto Tiago!! se me permite vou compartilhá-lo