26.11.11

Espiritualidade: desejo de eternidade ou sinal de maturidade?

Reproduzo aqui um artigo dedicado a minha aluna Letícia Cerqueira, uma estudiosa do tema.



Teresa Creusa de Góes Monteiro Negreiros
Psicóloga clínica. Doutora em Psicologia Clínica pela PUC/RIO. Profa. do Depto. de Psicologia da PUC/RIO. End.: R. General Venâncio Flores, no 368, apto 202- Leblon - Rio de Janeiro - CEP 22441- 090 e-mail: teresagoes@openlink.com.br



RESUMO
Neste texto sobre a relação espiritualidade e envelhecimento, destacamos que, além deste tema ser passível de preconceito, com recente inserção na literatura científica e acadêmica, ainda permanece, em psicologia, a polêmica.- Será a espiritualidade um sinal de maturidade ou refere-se a um desejo infantil de eternizar-se, a ser superado? Apresentamos múltiplas concepções de espiritualidade e procuramos mostrar que há vários indicadores de que a busca de um sentido para a vida, a presença da fé, a prática de virtudes e a crença na transcendência, com o avançar da idade, atenua o impacto de novas formas de mal-estar contemporâneo vividos pelos idosos, bem como pode atuar como um recurso para melhoria de condições de saúde e prolongamento da vida.
Palavras-chave: espiritualidade, envelhecimento, sentido da vida, mal-estar contemporâneo, maturidade


ABSTRACT
In this essay about spirituality and aging we point out that, aside from the prejudice involving the theme and recently discussed in the scientific and academic literature, a controversial issue still remains in psychology: Is spirituality a sign of maturity or a child desire of eternity that should be surpassed ? Multiple conceptions of spirituality were presented. We also tried to show that there are several indicators that, in later years, the search for the meaning of life, faith, virtuosity and the belief in transcendence lessens the impact of new kinds of contemporary discontents encountered by elder people and may as well act as a resource to improve health conditions and the life span.
Keywords: spirituality, aging, meaning of life, contemporary discontents, maturity



PERDER A VIDA É UMA NINHARIA E TEREI CORAGEM QUANDO FOR PRECISO. MAS VER-SE DISSIPAR-SE O SENTIDO DA VIDA, DESAPARECER NOSSA RAZÃO DE EXISTIR, EIS O INSUPORTÁVEL.
ALBERT CAMUS

Introdução
 
Nosso interesse pelo tema da espiritualidade surgiu a partir de nossa prática clínica, tanto com idosos como com dependentes químicos. Em ambos os grupos (e seus familiares), verificamos que a espiritualidade constituiu-se em poderoso fator de suporte para enfrentar desafios, frustrações e sofrimentos, além de melhorar consideravelmente a saúde e a qualidade de vida. O que estes grupos teriam em comum? 

Em princípio, uma resposta pode ser orientada pelo raciocínio do sociólogo Elias (2001) em seu ensaio sobre a solidão dos moribundos. Para ele, a adesão a crenças são mais fortes em grupos cujas vidas são menos controláveis, mais imponderáveis, mais ameaçadoras, com perigos iminentes e imprevisíveis, o que se aplica a ambos os casos. No grupo dos mais velhos, seria um modo de redimensionar receios e dores oriundos da fragilidade, da decadência, da vulnerabilidade e os sofrimentos pelas perdas num percurso maior de vida , além de se tentar ultrapassar e vencer a angústia diante da incógnita da extinção pela morte cada vez mais próxima. 

De qualquer modo, aprofundando a questão, registramos que inúmeras pesquisas, desde várias décadas, vem comprovando o benefício desta relação: espiritualidade-envelhecimento. Embora ambos os termos sejam de difícil conceituação, pois são eivados de preconceito. Quanto ao envelhecimento, é minimizado e caricaturado por eufemismos tais como idoso, 3ª Idade, maturidade, nova-idade, melhor idade, idade do lobo, da loba, etc... para mascarar a representação social da palavra velho, indicando gasto, decadente, inútil, inativo, ultrapassado, deteriorado, etc... Ou seja, envelhecimento refere-se, quase sempre, a efeitos indesejáveis decorrentes da passagem do tempo. Raramente está relacionado a processo de amadurecimento ou aquisição de uma característica considerada positiva, como sabedoria, virtude. 

Espiritualidade, por sua vez, além de ser uma noção complexa, passa pela objeção de ser considerada um conceito metafísico, não passível de inserção na literatura científica, isto é, sem as credenciais do rigor científico para legitimar o termo. Embora as atuais evidências sejam tão expressivas e numerosas que já não há possibilidades de ignorar nem o termo, nem sua relação com o envelhecimento (Goldestein & Sommerhalder, 2002). De qualquer forma, não se trata de um tema sobre o qual profissionais se sentem confortáveis em tratar, até porque se costuma associá-lo a confissão religiosa, crendice. E, freqüentemente, ele é percebido como uma abordagem falsa, enganosa, sectária, calcada na necessidade de se apontar mesmo um descaminho na vã tentativa de buscar eternidade. Ou seja: ainda se confunde uma discussão a respeito do tema com ingenuidade ou charlatanismo. Mas o fato é que o espírito do tempo - zeitgeist - já nos permite falar a respeito de uma questão ainda tabu em congresso científico de Geriatria e Gerontologia, o que consideramos um avanço...




Espiritualidade e envelhecimento - pesquisas e polêmicas
 
Muitas pesquisas vem sendo desenvolvidas sobre a relação entre espiritualidade e envelhecimento, em diversos contextos, incluindo-se desde aquelas direcionadas a melhoria de condições de vida e de saúde - pelo auto-conhecimento, prática de virtudes, adaptação a condições adversas, interação social, devoção religiosa, etc. - até a aceitação e preparação para a morte - crença na manutenção do espírito, apesar da decadência corporal; transcendência a si próprio, ao tempo e ao espaço; desapego, etc. 

Dentre diversas opções, em primeiro lugar mencionamos o não tão recente mas esclarecedor estudo de Moberg e Brusek (1978), que destaca duas dimensões de espiritualidade: a horizontal, representada como um recurso interno e subjetivo, mobilizado pela experiência de doação de si, de fraternidade, através do contato mais íntimo consigo próprio, com a natureza, arte, poesia, ou quaisquer ideais visando ao bem-estar social, a solidariedade, o cuidado, a tolerância, entre outros. E a vertente vertical que caracterizaria um movimento em direção a Deus, a um Poder Superior, ao grande Outro. De qualquer modo, ambas as dimensões não seriam excludentes entre si e cada uma, a seu modo, estaria ligada a alteridade. 

Um outro aspecto que nos parece relevante é que diversas pesquisas sobre o tema têm sido realizadas por médicos, profissionais comprometidos, por excelência, com a saúde do corpo. Uma delas foi citada, entre outras, pelo cardiologista Puppin (2002) em seu recente livro sobre verdades e mitos nas doenças cardiovasculares. Foi o chamado fenômeno de Roseto, núcleo fundado por imigrantes italianos, na Pensilvânia, cuja comunidade foi estudada na década de 60, onde se verificou que o índice de doenças cardio-vasculares era 50% inferior à média americana. As hipóteses plausíveis quanto a aspectos climáticos (clima não diferia de muitas localidades próximas pesquisadas), dietas pouco calóricas (a ingestão de gordura era farta e de origem animal) e explicação de ordem genética foram descartadas. Sobre esta última, o pesquisador localizou filhos de imigrantes que se fixaram em outras cidades e adotaram o estilo de vida americano (aquisição de valores materialistas, hábitos de competição, stress, disputa, ambição, além de menor nível de religiosidade e espírito comunitário) e, comparando-os com demais sujeitos da mesma geração, observou idênticos índices de doenças cardio-vasculares. Uma maior longevidade e saúde estava, pois, relacionada à constituição e manutenção, por um grupo, de uma sociedade mais igualitária, com menor tensão psicológica e uma maior rede de apoios solidários, onde se compartilhavam alimentos, músicas, costumes, tradições, religião. 
Dra. Kubbler-Ross
Além de médicos, a conhecida enfermeira Kubbler Ross (1996; 2000) nos esclarece, em seus livros, baseados em observações com pacientes terminais, entre os quais muitos idosos, a importância da fé nos derradeiros momentos de vida. Ela atestou, ao longo de sua carreira, já como professora de psiquiatria, que, na fase final, quando nada mais há a ser feito do ponto de vista clínico e o doente pressente e aceita o seu fim, ele pede, então, para ser atendido por um religioso e não mais pelo staff hospitalar (médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, nutricionistas e demais) em seus momentos derradeiros. Para a autora, esta preferência se dá, ao menos parcialmente, em razão da dificuldade dos profissionais de entrar em contato com as perdas, o sofrimento, a finitude. Os religiosos estariam mais aptos para lidar com a renúncia à vida nesse mundo, desmistificando o medo da morte.