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14.7.11

Sexualidade do ocidente e do oriente através dos desenhos

Interessante devaneio de um colega internauta sobre sexualidade: tabus, ocidente x oriente, preconceitos, androginia, sexualidade feminina, homosexualidade, fetiches, etc

ORIGINAL EM: http://members.fortunecity.com/elbereth1/Sailormoonp3.htm

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A silenciosa revolução sexual de Sailor Moon (III)





Esta página é a terceira de uma série que trata da visão feminina nos mangás e animes, especialmente em Sailor Moon. Se você chegou direto a esta página, recomendo que você leia antes as primeiras partes ou algumas coisas podem não ficar muito claras. Vá até lá clicando AQUI.

Aviso: Se você acha que desenho animado e assuntos "de adultos" como erotismo e sexualidade não combinam, não se dê ao trabalho de ler esta página até o final. Não há nada de imoral ou "sacana" por aqui, apenas uma discussão séria de como tais temas são tratados mais ou menos abertamente em mangás e animes ao contrário do que acontece na sociedade ocidental. Caso esteja a fim de ler sobre isso, seja bem vindo e prossiga sem medo. Caso contrário, tenho certeza que você vai achar algo mais interessante na página do Índice.)


A Auto-crítica

À primeira vista, muita gente (e eu entre eles) conseguem apenas ver a superfície do enredo romântico e das patetices de Sailor Moon. No entanto, uma segunda olhada mais atenta deixa ver o quanto de crítica Naoko Takeuchi empresta ao seu trabalho. Todos os clichês românticos dos shoujo manga, das novelas de TV e das revistas de fotonovelas estão lá, apenas ampliados de tal maneira que se tornam patentemente ridículos. Vamos ver alguns deles.
Comecemos pela roupa das sailors: li em algum lugar que quando Takeuchi submeteu o esboço da série ao editor pela primeira vez ele disse que era ridícula a idéia de meninas salvarem o mundo vestidas de marinheiro e com aquelas mini-saias. No entanto, é exatamente isso que faz a graça da série. Heroínas que se vestem desse jeito não podem ser levadas a sério, o que abre espaço para que elas oscilem loucamente entre os comportamentos de super-heroínas e estudantes do primeiro grau. Até mesmo Amy, sempre tão séria, solta uma bobagem de vez em quando.



Porém, a auto-crítica não chega a ser por demais agressiva ao ponto de tirar a credibilidade das heroínas. Ao mesmo tempo, segundo o ponto de vista feminino, as roupas são bonitas e ressaltam as personalidades das sailors, principalmente os acessórios, como sapatos e brincos: vejam como os sapatos de salto alto de Raye realçam seu estilo clássico, enquanto as botinhas amarradas de Lita sugerem a sua praticidade, que é contrabalançada, porém, por seus brincos em forma de rosa (mulheres gostam de tais detalhes nas obras dedicadas a elas, basta ver o sucesso de qualquer item da moda que apareça nas novelas da TV e o cuidado dispensado às roupas de Sakura Card Captor...). Além disso, as transformações são uma festa de delicadeza, principalmente a de Sailor Moon na primeira fase do anime,  quando fitas cor-de-rosa envolvem o seu corpo e dão origem ao seu uniforme - tanto que se tornou uma cena clássica de transformação de heroínas, sendo revisitada, por exemplo, em Corrector Yui.

Outro ponto que chama a atenção é a figura de Tuxedo Mask. Ele é o protótipo do herói dos romances baratos, vestido a rigor  (uma roupa ainda menos prática do que a das sailors quando se trata de lutar...), completo com capa, bengala e aquela cartola que deve ter sido feita na mesma fábrica do chapéu de Indiana Jones, já que ambos nunca caem mesmo após várias cambalhotas. E não nos esqueçamos da máscara, que recria o mito do protetor desconhecido tão presente nas HQs. Mas o ápice de tudo são as frases melosas e quase sem sentido que ele diz quando salva a situação - com uma música pseudo-espanhola ao fundo, acentuando ainda mais o seu "poder de sedução". É tudo hilário demais! 

Porém, tudo isso não chega a ser tão escrachado que destrua totalmente a ilusão do momento romântico e do homem culto e refinado, tanto que no começo eu mesma chegava a me irritar com o comportamento "over" do personagem. Apenas muito tempo depois, vendo as outras fases da série e como as falas de Tuxedo Mask iam ficando mais e mais absurdas, é que eu percebi a ironia e o escracho. O pior é que a gente pode realmente encontrar falas parecidas nos romances baratos que as moças costumavam ler (tipo Sabrina ou Bianca), só que levadas a sério naqueles contextos!...

Mais um ponto de auto-crítica é o romantismo exagerado que  permeia a série, principalmente por parte de Serena e, mais ainda, de Lita, que vê em cada homem alguma coisa que lembra um antigo namorado e conseqüentemente a faz apaixonar-se repetidamente em um piscar de olhos. Serena diz que só tem olhos para Darien, mas sempre acaba flertando com mais alguém - o que leva aos protesto indignados de suas amigas, porque, afinal, ela já tem um namorado, enquanto as demais ficam "sobrando".
Esse romantismo desmedido, a idealização do parceiro perfeito, a espera do grande amor, os ciúmes, a incerteza e o medo de perder a pessoa amada são, no entanto, as questões mais importantes para a faixa de idade a que se destina a série e sua exposição de uma maneira leve mas consciente certamente foi crucial para o sucesso da série entre as mulheres de vários países. No entanto, ainda há um elemento incrivelmente marcante em Sailor Moon que conseguiu atravessar inúmeras barreiras de censura e expor questões até então pouco vistas nas bandas ocidentais: a expressão da sexualidade feminina. 

  A sexualidade no Ocidente 

É interessante ver como a visão da sexualidade feminina tem evoluído no Ocidente. Na Idade Média, a figura da mulher oscilava entre a santa mãe (calcada na figura da Virgem Maria) e a fonte de todo o mal (na figura de Eva e sua nefasta influência sobre Adão). Como não era possível conciliar as duas idéias completamente antagônicas, as mulheres tinham que escolher o seu lado: ou se tornavam moças "pra casar", puras e praticamente assexuadas (a não ser no dever de dar filhos ao marido, mas isso pouco tinha a ver com sexualidade, e sim apenas com a procriação e a conservação da espécie) ou se tornavam "libertinas", "cortesãs", "prostitutas" - isto é, mulheres que serviam à diversão dos homens (como uma profissão) ou que "cediam aos seus impulsos malignos" e eram excluídas da sociedade respeitável (o que ainda hoje acontece muito. Só como ilustração, há alguns anos eu estava num ônibus e passamos por uma rua onde havia várias prostitutas "fazendo ponto" no meio da tarde. Um homem que estava sentado ao meu lado comentou algo sobre "essas mulheres perdidas" ou coisa assim. Eu então disse que, se elas não tivessem "clientes" que as procurassem, elas não estariam ali, e que se os homens não pagassem por sexo não existiria mais prostituição no mundo. Não é que o cara ficou furioso comigo? É fácil pensar que outras pessoas são "decaídas" por natureza, mas ninguém quer pensar no quanto faz parte dessa história, não é?...).