Mostrando postagens com marcador psicologia da aprendizagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador psicologia da aprendizagem. Mostrar todas as postagens

17.6.11

Compaixão aprendida?


sex, 13/05/11
por tadeu.meniconi - categoria Espiral

Existe algo que me incomoda na prática médica e estudo da medicina. Acompanho alunos da área de saúde na Universidade da Califórnia, desde a entrada na faculdade até a formação profissional. Vejo estudantes brilhantes cursando o primeiro ano, cheios de vontade de aprender mais sobre os mistérios das doenças e com curiosidade sobre a percepção do paciente. Porém, já no final do curso, encontro profissionais “gelados”, buscando a solução para o problema o mais rápido possível para se dedicar ao próximo paciente.

Esse modelo, que não acredito que seja restrito aos EUA, ensina ao profissional de saúde a se afastar do paciente, procurando a não-interação ou a ausência do contato pessoal. Isso acontece como forma de defesa, prevalecendo o medo de se relacionar com o paciente ao se aproximar aos problemas dele. A relação médico-paciente acaba se restringindo a doença e tratamento. Talvez isso seja um reflexo da dinâmica da sociedade moderna. O fato é que esse tipo de atitude acaba por afetar o processo de cura, causando confusão de diagnósticos ou mesmo atrasando todo o tratamento. É contra-produtivo.

Meu questionamento parte de um principio da neurociência. Estudos de empatia e altruísmo, tanto em animais como humanos, sugerem que ao nos colocarmos mentalmente no lugar de um indivíduo com determinada dor, somos mais capazes de distinguir e entender o sofrimento alheio. Pessoas com baixo nível de empatia ignoram esse tipo de “dica não-verbal” e não correspondem à expectativa do outro. É interessante notar que esses trabalhos conseguem realmente quantificar o nível de compaixão utilizando métodos de neurociência sofisticados, como ressonância cerebral, ou testes bem simples, como identificar rostos com mais ou menos sofrimento em fotografias.

Mas como treinar os profissionais a ter compaixão? Neurônios chamados de “vonEconomo”, presentes na ínsula frontal do córtex e em parte do sistema límbico anterior, seriam responsáveis pela geração do sentimento de compaixão e consciência social. Esses neurônios são mais abundantes em humanos do que em outros “apes” (superfamília que inclui macacos de grande porte e humanos) e, aparentemente, não existem em outros primatas. Também foram encontrados em elefantes e baleias, o que talvez indique que cérebros grandes usem esses neurônios para conectar regiões fisicamente afastadas (Allman e colegas Ann. NY. Acad. Sci, 2011).

Estudos de meditação com monges budistas permitiram descobrir que com treinamento adequado é possível induzir essas regiões do cérebro, aquecendo-as ou resfriando-as mentalmente. O aquecimento dessas regiões (não necessariamente um aquecimento físico, mas mental, induzindo o metabolismo) conseguiu alterar a compaixão sentida pelos indivíduos quando expostos a faces de outras pessoas sofrendo. A distinção da dor torna-se muito mais sensível. Resfriando essa região cerebral deixaria o individuo com menos compaixão.

Isso significa que podemos controlar mentalmente o nível de compaixão em determinadas situações. Esse tipo de treinamento permitiria que profissionais de saúde aquecessem mentalmente a ínsula frontal do córtex antes de interagir com o paciente, amplificando e reinforçando a percepção do sofrimento. Ao final da consulta, o profissional poderia então esfriar a ínsula, desligando-se do paciente e evitando um conflito emocional.

Obviamente, esse treinamento deveria fazer parte do currículo de graduação dos profissionais de saúde que interagem diretamente com pacientes. Infelizmente, não acho que estamos preparados para esse tipo de estratégia. Falta reconhecimento de que a compaixão auxilie no tratamento por parte dos profissionais e mesmo dos próprios pacientes. Enquanto não chegamos lá, penso também que esse tipo de treinamento fosse útil não apenas num contexto de saúde, mas em outras esferas sociais, como debates políticos, ou mesmo no dia-a-dia. Temple Grandin, uma autista norte-americana, conseguiu aplicar a compaixão no design de matadouros de gado para redução de estresse, revolucionando a qualidade da carne consumida hoje em dia. Existem outros exemplos de compaixão melhorando nossa qualidade de vida. Pergunto como seria o mundo daqui a 50 anos se conseguíssemos treinar as crianças de hoje a ter mais compaixão?

fonte: G1

compaixão e orangotangos - vídeo


A moral dos animais

Gestos de solidariedade e gratidão são comuns também entre alguns primatas

Ajudar uma pessoa que está em apuros, ser grato a quem presta algum tipo de favor, fazer as pazes após uma briga – gestos como esses são inerentes ao ser humano, resultam de seus valores morais e éticos. Por isso mesmo, foi com surpresa que os cientistas descobriram que eles também são comuns entre alguns tipos de primata. Os chimpanzés não sabem nadar, mas se arriscam nos tanques dos zoológicos tentando salvar seus colegas. Os macacos rhesus, submetidos a experiência na qual, para obter comida, tinham de puxar uma corrente que dava choques elétricos em seus companheiros, preferiam passar fome. Muitos biólogos acreditam que esse tipo de comportamento, entre os animais, é resultado da mesma corrente da evolução que produziu o senso de moralidade dos seres humanos. A moral e a ética, que para a filosofia são produto da inteligência e da capacidade de raciocínio humanas, na verdade teriam sido gravadas em nosso DNA durante o processo de evolução da espécie.
 
O maior defensor dessa tese é o primatologista holandês Frans de Waal, que lançou no fim do ano passado o livro Primates and Philosophers: How Morality Evolved (Primatas e Filósofos: Como a Moralidade Evoluiu). Segundo De Waal, ao longo da evolução, os animais que formam comunidades tiveram de imprimir alterações em seu modo de agir para que a vida em grupo seguisse harmoniosa. Essas alterações, de acordo com sua tese, resultariam num conjunto de comportamentos no qual também se baseia a moralidade humana. No fim do ano passado, o biólogo Marc Hauser, da Universidade Harvard, colocou lenha na fogueira ao lançar o livro Moral Minds (Mentes Morais). Nele, o cientista afirma que o cérebro humano tem um mecanismo geneticamente desenvolvido para adquirir regras morais.

Nos últimos anos, a tese da moralidade produzida através da evolução foi alvo de pesadas críticas por parte de psicólogos, filósofos e mesmo alguns biólogos. Agora, começa a amealhar mais adeptos. "Não tenho dúvidas de que compartilhamos alguns padrões de comportamento com os chimpanzés", diz o filósofo americano Philip Kitcher, da Universidade Columbia. Em meio à polêmica, o desafio é desvendar o mistério das semelhanças no modo de agir entre homens e primatas no que diz respeito ao julgamento do que é certo e errado.

veja o vídeo abaixo: