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16.12.12

Thomas Merton: trecho final da sua última conferência - Legendado (Português)



Thomas Merton, (31 de janeiro de 1915 - 10 de dezembro de 1968) foi um escritor católico e místico anglo-americano. Foi monge trapista da Abadia de Gethsemani, em Kentucky -USA. Era poeta, ativista social e estudante de religião comparada. Em 1949, foi ordenado para o sacerdócio e recebeu o nome de Padre Louis.


Merton escreveu mais de 70 livros, a maioria sobre espiritualidade, justiça social e pacifismo, assim como dezenas de ensaios e resenhas, incluindo sua autobiografia, um best-seller, The Seven Storey Mountain (1948). Merton foi um defensor tenaz do diálogo inter-religioso. Igaulmente, foi pioneiro no diálogo com proeminentes figuras espirituais asiáticas, incluindo o Dalai Lama, o escritor japonês DT Suzuki, e o monge vietnamita Thich Nhat Hanh. 


Contato com o budismo

Merton conheceu e se interessou pelas religiões orientais quando leu o livro de Aldous Huxley "Ends and means", em 1937, um ano antes de sua conversão ao catolicismo. Ao longo de sua vida, ele estudou budismo, taoísmo, hinduísmo, jainismo e sufismo, além de seus estudos acadêmicos e monásticos usuais. 

Merton não estava interessado no que estas tradições tinham a oferecer como doutrinas e instituições, mas estava profundamente interessado no que cada uma pensava sobre a profundidade da experiência humana. Isso não quer dizer que Merton acreditasse que essas religiões não tivessem rituais ou práticas valiosas para ele e outros cristãos. Ocorre que ele estava, doutrinariamente, tão comprometido com o cristianismo, assim como os  praticantes de outras religiões estavam tão comprometidos com suas próprias doutrinas que qualquer discussão sobre doutrina seria inútil para todos os envolvidos.


Ele acreditava que o cristianismo havia abandonado, em grande parte, sua tradição mística em favor da ênfase cartesiana em "reificação de conceitos, idolatria da consciência reflexiva, verbalismo, matemática e racionalização". As tradições orientais, para Merton, eram em sua maioria poucos contaminadas por esse tipo de pensamento e, portanto, tinham muito a oferecer em termos de como pensar e compreender a si mesmo.

Merton foi talvez mais interessado em - e, de todas as tradições orientais, escreveu mais sobre - o Zen Budismo. Tendo estudado os "Padres do Deserto" e outros místicos cristãos, como parte de sua vocação monástica, Merton tinha uma profunda compreensão da busca espiritual destes religiosos e encontrou muitas semelhanças entre a linguagem desses místicos cristãos e a linguagem da filosofia Zen

Em 1959, Merton iniciou um diálogo com DT Suzuki, grande acadêmico. Quase dez anos depois, quando "Zen e as Aves de Rapina" foi publicado, Merton escreveu em seu posfácio que "qualquer tentativa de lidar com Zen em linguagem teológica obrigatoriamente erraria o alvo". Caso alguém assim procedesse daria um  "um exemplo de como não se aproximar do zen ". Merton se esforçou em conciliar o impulso ocidental cristão em catalogar e colocar em palavras toda a experiência através da teologia apofática cristã e da natureza inefável da experiência zen.

Último discurso




No dia 10 de dezembro de 1968, Thomas Merton proferiu sua última conferência no Encontro Ecumênico de Monges da Ásia, em Bangkok/Tailândia. Falara sobre Marxismo e Perspectivas Monásticas. Claramente exausto, ele, antes de se retirar ao seu quarto para tirar uma soneca, expressou o que viriam a ser as suas últimas palavras públicas: "Eu vou desaparecer". Ele voltou ao seu quarto e morreu eletrocutado durante seu banho.



Num de seus diários, Thomas Merton profetizou: "Por que será que eu sempre andei meio convencido de que iria morrer jovem?" 


Merton nasceu em 31 de janeiro de 1915. Prestes a completar 27 anos de idade, entrou para o Mosteiro no dia 10 de dezembro de 1941. E numa triste coincidência morreu em 10 de dezembro de 1968 - no 27 º aniversário de seu ingresso em Gethsemani.






abaixo um artigo sobre a relação de Merton com a filosofia oriental

http://www.unicap.br/revistas/agora/numeros/2/arquivos/artigo%206.pdf

25.4.12

Espiritismo e mercado....o que pensar?


João de Deus S.A.


Médium João Teixeira de Faria, conhecido até no exterior, reúne fiéis para cirurgias espirituais e passes em Goiás; fé move montanha de dinheiro

Alan Marques/Folhapress


O médium conhecido como João de Deus durante atendimento espiritual

CATIA SEABRA
ALAN MARQUES
ENVIADOS ESPECIAIS A ABADIÂNIA (GO)


BRENO COSTA
DE BRASÍLIA

Em Abadiânia, a fé move montanhas. De dinheiro. Atraídos pelo dom do médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, cerca de 3.000 fiéis visitam, semanalmente, a Casa Dom Inácio de Loyola, em Goiás.
Em uma casa azul e branca, a 79 km de Goiânia, ilustres e anônimos passam pelas mãos de João de Deus -ou John of God, como é conhecido no exterior- para realização de cirurgias espirituais e também passes.
A história de João, que teve sua primeira visão aos oito anos, já foi tema dos programas da americana Oprah Winfrey e da Xuxa. No mês passado, Oprah -uma das maiores celebridades da TV dos EUA- veio ao Brasil para entrevistar o médium, filho de um alfaiate com uma dona de casa.

Hoje, aos 69 anos, João de Deus é dono de pelo menos uma fazenda de 597 alqueires -o correspondente a 18 parques como o do Ibirapuera (zona sul de São Paulo)- na divisa de Goiás com Mato Grosso. Lá, uma propriedade dessa dimensão não vale menos do que R$ 2 milhões. O médium tem o garimpo como fonte de renda.

CALMANTE


Apesar de o atendimento ser gratuito, a casa, fundada em 1976, conta com farmácia de manipulação, livraria, lanchonete e loja de cristais benzidos pelo médium. Até a água fluidificada tem valor agregado.

A garrafa custa R$ 1. Energizada, vale R$ 3.

O grosso do dinheiro arrecadado vem da venda de frascos de passiflora, calmante natural fabricado pelo grupo. Organizados em fila conforme a assiduidade na casa, os consulentes recebem do médium uma receita, expressa num rabisco, para consumo de três comprimidos por dia como complemento ao tratamento presencial.

O frasco, com 175 cápsulas, custa R$ 50. Como a média de atendimento é calculada em mil pessoas por dia, três vezes por semana, a receita com a venda pode chegar a R$ 500 mil ao mês.


Ganhar 500 mil por mês vendendo maracujina - QUEM NÃO QUER?

Embora traga as inicias de João Teixeira Faria, a Farmácia de Manipulação JTF Ltda, que comercializa o remédio, está registrada em nome da mulher, Ana Keyla Teixeira, 33, e de seu motorista e caseiro Abadio da Cruz, 41.

Procurado, Abadio disse trabalhar com João de Deus há 17 anos, mas mostrou desconhecer a rotina da farmácia da qual figura como sócio. Diante da insistência da Folha em saber o motivo de sua presença na empresa, ele desligou o telefone. "Não posso dar informação sobre isso", repetiu quatro vezes para a reportagem.

O complexo oferece ainda sete cabines de banho de cristal - camas em que pacientes passam por imersão de luz. O preço cobrado é de R$ 20 por 20 minutos de sessão.

Relatos sobre procedimentos do médium, que incluem cirurgias com corte, a depender da escolha do consulente, garantiram-lhe notoriedade internacional.

ATENDIMENTO


Descalço e vestido de branco, João atende aos visitantes às quartas, às quintas e às sextas. Também de branco, consulentes, boa parte deles estrangeiros, passam por uma triagem para fila de atendimento: primeira vez, segunda vez, revisão...

O médium dedica outros dias da semana a visitas a enfermos. Foi assim com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo relato de petistas, durante seu tratamento contra o câncer na laringe. Em entrevista à "TV Folha" no mês passado, Lula disse que foi procurado por João de Deus e por outros religiosos e que é "muito agradecido" por toda a ajuda que recebeu no período em que esteve doente.

Em uma sala contígua ao salão de atendimento, João ostenta uma foto autografada de Lula, outra do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e uma do ex-ministro Nelson Jobim.

Num pátio de acesso ao salão, vídeos exibem cenas de intervenções com corte, a maior parte no olho e na barriga. Num deles, o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) aparece como "instrumentador" da cirurgia.

APARTAMENTOS


Em Abadiânia, João de Deus é proprietário ainda de cinco apartamentos, alugados, cada um, a R$ 1.000 por mês ou R$ 90 por dia. Os imóveis estarão ocupados pelos próximos três meses.

João de Deus - "rindo à toa"
A hospedagem é também fonte de renda de seus apóstolos. Pelo menos seis voluntários da casa -incluindo dois tradutores, dois encarregados do acompanhamento do médium e a responsável pela triagem de visitantes- são proprietários de pousadas vizinhas. Um dos coordenadores é ainda dono do ponto de táxi. A diária custa, em média, R$ 90 por pessoa em apartamento compartilhado, de modestas acomodações. Já a corrida de táxi da casa até Brasília custa R$ 180.

Os negócios do médium, contudo, não se resumem a Abadiânia. Nos anos 1990, chegou a ser sócio de um bingo em Goiás, na época em que o jogo era legal. Hoje, é sócio do filho em uma clínica odontológica.

Mas sua principal atividade paralela é a mineração de ouro.

Médium explora garimpo de ouro há 40 anos

Amigo diz que ele usa a mediunidade para indicar os melhores locais para achar ouro


DE BRASÍLIA
DA ENVIADA A ABADIÂNIA

Nem só de espiritualidade vive João de Deus. O médium construiu parcela significativa de seu patrimônio explorando garimpos de ouro ao longo dos últimos 40 anos. Chegou até a ser proprietário de uma empresa de mineração, aberta em 2004 em parceria com uma cooperativa de garimpeiros do interior de Goiás.
Hoje, não há qualquer lavra registrada no DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), órgão federal de controle das atividades minerárias no país, em nome dele ou de empresa da qual seja sócio.
Contudo, amigos, auxiliares e assessores são unânimes ao dizer que João é garimpeiro e que ganha dinheiro com isso.

"João gosta muito de mineração, gosta de garimpo, sempre gostou", diz João Américo França Vieira, 52, uma espécie de braço direito do xará médium. "Tem muita coisa do patrimônio do João que é fruto de garimpo."


" Nem tudo que reluz é ouro??? "

João Américo, minerador, afirma conhecer João de Deus há 29 anos. Diz que parte do dinheiro que permite os trabalhos sociais realizados pela Casa Dom Inácio Loyola, o centro espiritual de Abadiânia, vem de seus garimpos.

"Não sei se é coincidência ou se é alguma mediunidade, alguma coisa que faz com que isso aconteça. Mas o que ele tem falado tem dado certo."

João Américo refere-se a indicações feitas pelo médium a respeito de lugares onde a chance de achar ouro é considerada grande.

"Às vezes ele aciona [a mediunidade]. Por exemplo, eu tenho uma mineração no Pará. Ele disse: 'Você vai pra lá, você vai achar um negócio assim, assim, assim'. E aí deu certo. Cheguei lá e achei."

RECOMPENSA


A recompensa, diz João Américo, vem em forma de colaborações tanto "para a pessoa do João" quanto para os trabalhos sociais da Casa Dom Inácio de Loyola. Ele não falou em valores à Folha.

Hoje, João Américo é dono de um garimpo de ouro em Crixás (GO) que pertencia ao próprio João de Deus. Ficou com o garimpo numa terra de 30 alqueires e deixou com o médium uma fazenda à beira do rio Araguaia, com tamanho 20 vezes maior.

O braço direito de João de Deus -a quem o médium confia a missão de pilotar o avião que o leva para atendimentos pelo Brasil- tem um passado conturbado, justamente na área mineradora. Américo foi sócio de um dos maiores matadores da garimpagem brasileiro, Márcio Martins da Costa, apelidado de "Rambo" e morto pela polícia paraense em 1992.

Eles abriram quatro empresas juntos, sendo duas mineradoras, no Pará. "Rambo" morreu sob suspeita de ter atuado diretamente em dezenas de homicídios.

O próprio João Américo já foi julgado por cinco homicídios em fevereiro deste ano. Foi inocentado, por falta de provas.

DÍVIDAS


A atividade garimpeira gerou a João de Deus, além de dinheiro, cobrança de dívidas. Ex-sócio do médium no garimpo e amigo de infância no interior goiano, Vilmar dos Santos, da cooperativa dos garimpeiros de Crixás, diz esperar até hoje o cumprimento de um acordo pelo qual ele ficaria com 35% da venda do negócio. Segundo suas contas, cerca de R$ 700 mil. Vilmar afirma ainda confiar no pagamento, mas admite ter receio de ser mais firme na cobrança da suposta dívida do médium. "Eu sou católico e não acredito nessas coisas de mediunidade. Mas a gente tem essas coisas, fica preocupado com isso, de ficar cutucando os 'trem'", afirma o ex-sócio de João de Deus.
(BRENO COSTA E CATIA SEABRA)



FRASES
"Tem muita coisa do patrimônio dele que é fruto de garimpo"
"Não sei se é coincidência ou se é alguma mediunidade, alguma coisa que faz com que isso aconteça. Mas o que ele tem falado tem dado certo"
JOÃO AMÉRICO FRANÇA VIEIRA, 52
amigo do médium


O OUTRO LADO

'Tudo o que é comercializado é em prol da casa', diz assessoria

DE BRASÍLIA

O médium João Teixeira informou, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que atua na área de garimpo e possui fazendas. A assessoria não informou a quantidade nem a localização de suas propriedades rurais e reservas de extração de minério. "Os negócios pessoais e a vida de sr. João Teixeira dizem respeito a ele e não devem ser objeto de especulação", informou, por e-mail.

Tudo é em prol da "causa"....
A assessoria apresenta dados contraditórios sobre o início da atividade no garimpo. Numa resposta, diz que foi iniciada aos seus nove anos ("há 60 anos"). Em outra, que foi há 40 anos. Segundo a assessoria, é do garimpo e das fazendas que João de Deus "retira recursos necessários para seu sustento e para custear todas as despesas decorrentes da casa de Dom Inácio e das demais atividades assistenciais e de caridade a que se dedica".

Ainda segundo a assessoria, toda a arrecadação da Casa Dom Inácio de Loyola é destinada ao funcionamento do centro, a obras de caridade e à distribuição de sopa a visitantes e pessoas carentes. "Tudo o que é desenvolvido e comercializado é em prol da casa e da 'casa da sopa'."

Sócio da farmácia de manipulação responsável pela produção de passiflora vendida no centro, Abadio da Cruz disse que não poderia comentar sua participação no negócio. Segundo a assessoria, Abadio, que atua como motorista do médium, é um funcionário da casa.

Procurada, Ana Keyla -mulher e sócia de João Teixeira- não foi localizada.

Falando em nome do médium, de quem é amigo, o empresário Marcus Elias, controlador do fundo Laep Investiments e um dos donos da Parmalat, afirmou que João de Deus é "um fazendeiro e garimpeiro que atende às pessoas três vezes por semana [em Abadiânia]". Segundo Elias, João de Deus conquistou fortuna em Serra Pelada. E, ainda hoje, é dono de garimpos e propriedades rurais.

Ainda de acordo com Elias, são cerca de 40 funcionários contratados. Ao responder por que a farmácia não foi registrada no nome de João de Deus, Elias afirmou que o médium é analfabeto funcional.


AGORA, TE PERGUNTO???

O que falar deste aqui ??? Como o Chico, são raros......
"Tudo que veio a mim, em matéria de dinheiro, simplesmente passou por minhas mãos..." - Chico

10.3.12

Quando busca de saúde e religião se entrecruzam: um estudo de caso

por Bartolomeu Tito Figueirôa Medeiros

Antropólogo. Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA)/ UFPE. Endereço: Convento do Carmo, Pátio do Carmo s/n, Santo Antônio, 50.010-180 Recife – PE.
E-mail: bartotito@uol.com.br 


Resumo

A Antropologia da Saúde, no Brasil, constitui um campo de conhecimentos em ex-pansão. Autores a denominam de ‘interdisciplina’, tanto pelo entrecruzamento com as ciências da saúde, como pelo seu empenho em estudar as redes de organizações formais e de relações informais onde se interligam religião e doença/saúde; enfim, a cultura em geral de um povo e suas concepções de doença/saúde. Nosso projeto de pesquisa França-Brasil optou por este segundo objeto formal, num esforço inter-disciplinar que decidiu penetrar nos meandros do diálogo entre a Antropologia Sociocultural, a Sociologia e a Psicologia Social, buscando compreender e identificar os percursos do sujeito em situação de sofrimento psíquico, que recorre às diversas instâncias de solução para os problemas que o atingem. Esclarecidos estes cuidados teórico-metodológicos, o texto apresenta um estudo de caso. Dona Maria Rosa, ou Dona Rosinha, é uma senhora viúva, mãe de filhos. Apesar de seus 86 anos de idade, é lúcida, capaz de ajudar nos serviços domésticos na casa onde mora com uma filha, genro e netos. Etnicamente, ela é indígena da nação Atikum-Umã, povo que habita no alto da serra do mesmo nome, na região Nordeste do Brasil. Uma porção menor vive em sítios no sopé daquela, local denominado de “Massapê”. O estudo de caso de dona Rosinha comporta dois momentos ou duas fases, muito separadas temporal-mente e com configurações distintas. Seu processo de ‘tratamento’ foi o de extirpar os incômodos psíquicos com repercussões no físico, através do “desenvolvimento” de sua pretensa capacidade mediúnica, conforme a interpretação da maioria da comunidade.
O texto discute os processos sincréticos inerentes à prática de cura espiritual estudada no caso, além do enfoque teórico baseado na “coexistência de códigos culturais diversos, partilhados e incorporados desigualmente por diferentes segmentos sociais”.

 

Texto completo: PDF

Espiritualidade e ciência na sociedade do conhecimento

texto acadêmico de Mário Antonio Sanches, publicado na Estudos Teológicos, Vol. 49, No 2 (2009)

Mário Antonio Sanches é doutor em Teologia pela Escola Superior de Teologia, São Leopoldo (RS), especialista em Bioética, professor de Teologia Moral e Bioética e diretor do Programa de Pós-Graduação em Teologia da PUC-PR. Pesquisa nas seguintes áreas: Bioética e Teologia, Sexualidade e Reprodução, Relação Religião e Ciência. m.sanches@pucpr.br


Resumo

A sociedade do conhecimento é a sociedade da diversidade e da complexidade: multiplicidade de atores e de tecnologias de informação. Nesse contexto, falar de espiritualidade é reconhecer a necessidade de diálogo com e entre diferentes saberes, sendo o diálogo entre teologia e ciências da natureza um dos mais necessários e urgentes. A falta de diálogo pode esconder uma perspectiva reducionista e etnocêntrica. Após a análise da relação religião e ciência, este trabalho sugere alguns pontos para se pensar a espiritualidade na sociedade da informação, estabelecendo um diálogo entre as características desta sociedade com a espiritualidade, mais especificamente, uma espiritualidade cristã.

Palavras-chave: Sociedade do conhecimento. Espiritualidade. Religião. Ciência.
Texto completo, em pdf, AQUI

28.1.12

Concursos públicos, a vaga e a Igreja Universal

retirado do site de Rene Kivitz ( http://edrenekivitz.com/ ), sob o título de "Os pastores feiticeiros e seu evangelho pagão"

AGÊNCIA ESTADO | ECONOMIA & NEGÓCIOS

Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus inovam. Pela TV, em Brasília, prometem bom desempenho em concursos públicos. O fiel só precisa levar caneta ou comprovante de inscrição ao templo para ser ungido.


O discurso? “Se Deus te iluminar, te der a direção, nada dá errado.”


[Fonte: http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy]

O pior dessa notícia é que tem uma lógica danada. Literalmente, a lógica é danada. É dos quintos dos infernos. Mas faz todo o sentido dentro da cosmovisão religiosa popularmente identificada como cristã, isto é, da subcultura sociologicamente definida como segmento religioso que se pretende cristão. Senão, observe.

. Para quem crê em um Deus intervencionista, que se mete no cotidiano da vida humana vindo de fora (de outro mundo, da sala do trono, ou sei lá de onde), qual é o problema de pedir a Deus que favoreça um dos seus filhos em um concurso público?

. Para quem acredita em unção como ritual litúrgico, e sai por aí passando óleo e azeite em portas e janelas, carros, pessoas, animais de estimação, propriedades, galpões empresariais e escritórios, e outras coisas mais, qual é o problema de ungir ritualisticamente uma caneta ou uma ficha de inscrição para um concurso público?

. Para quem acredita que Deus revela segredos aos seus filhos, fala pela boca dos profetas e dá palpite na vida dos outros, qual é o problema em pedir uma iluminação ou uma direção, tipo informação privilegiada, como ajuda para o êxito num concurso público?

. Para quem acredita que o templo é a Casa do Senhor, e que os pastores, bispos, apóstolos e patriarcas são Servos do Senhor, pessoas especiais, com uma unção especial de Deus, qual é o problema de participar dessa unção ritualística no Templo Sede Internacional e receber a benção do homem de Deus antes de atravessar o desafio de um concurso público?

. Para quem faz promessas de subir escadas de joelhos, realiza peregrinações carregando cruz nas costas, amarra fitinhas de santos no pulso, pendura no pescoço colares benzidos nos terreiros, carrega santinhos na carteira, ou participa de correntes da fé em busca de bençãos materiais e soluções para problemas circunstanciais, qual é o problema de ungir a caneta ou a inscrição para o concurso público?

Em síntese, apesar de grotesca e de causar espanto, respeitada a lógica religiosa popular cristã, não há nada de errado nessa prática noticiada pela Agência Estado. O desafio é responder se essa lógica expressa de fato o Evangelho de Jesus Cristo.

26.1.12

Crenças kardecistas interpretadas por um budista

Eduardo Pinheiro, ou Padma Dorje, mantém o melhor site brasileiro sobre budismo - o www.tzal.org. Segue abaixo um recorte de uma parte do seu site...aproveitem para esclarecer suas dúvidas...

Vale a pena uma visita ao site!

O texto possui umas inclusões minhas para maior compreensão do público leigo. Como o Padma é bem austero, pediu para que eu deixasse claro as minhas inserções. Elas estarão em colchetes, como manda a regra!


No Budismo existe reencarnação no sentido kardecista?

No sentido kardecista, não. Há várias diferenças, sendo que a principal é a noção de samsara, no qual as várias existências não são necessariamente um aprendizado, e não há necessariamente uma evolução. Pelo contrário, as muitas existências, em geral, são só uma vastidão de sofrimento e falta de sentido — até que o dharma é praticado, e ele não é necessariamente praticado (isto é, não é uma evolução natural, mas uma deliberação de, relativamente, poucos).

OS SEIS REINOS DA EXISTÊNCIA - REINO (1) DOS DEUSES, DOS (2) SEMI-DEUSES, DOS (3) ESPÍRITOS FAMINTOS, DOS (4) ANIMAIS, DOS (5) HUMANOS, DOS (6) SERES INFERNAIS. Apesar de existir maior ou menor "sofrimento" em cada um dos reinos, em todos somos afligidos por emoções e dores. 

A reencarnação no budismo tem alguma semelhança com o que acham os espíritas?

Alguma semelhança existe, mas há diferenças.

Os espíritas em geral estão focados em algumas poucas vidas, e uma evolução necessária. No budismo já se passaram tantas vidas que todo mundo já foi mãe de todo mundo — então embora haja em certa medida essa coisa espírita de que seu filho pode ter sido o seu bisavô, a coisa em geral é muito mais vasta. Um professor viu uma pessoa atirando pedras num cachorro que atacava um caranguejo e disse "atira pedras na mãe, que devora o pai". No espiritismo, no máximo a pessoa estaciona, porque se considera que certas conquistas não são perdidas, como o renascimento humano. No budismo o renascimento humano é muito fácil de se perder.

Em geral, também, no espiritismo a crença em vidas futuras é vista como um alento — a pessoa não cessa, o "eu" não cessa, ele é só abalado pela falta de memórias. No budismo as vidas futuras são apenas mais sofrimento [pois continuamos a "girar" no Samsara - iludidos]. O objetivo do hinayana [forma mais antiga de budismo] é essencialmente eliminar as emoções aflitivas, porque são elas que levam a um novo nascimento. No mahayana [budismo mais moderno] isso muda um pouco de figura, porque você pode renascer com a aspiração de trazer benefício. Mas mesmo no mahayana e no vajrayana [budismo tântrico] se faz a diferença entre emanação e renascimento, isto é, renascimento lúcido (escolhido, não-compulsório) e renascimento a que se é levado pelas emoções aflitivas [pelo carma].

Enfim, como o budismo não aceita um "eu", o que renasce não é o que a pessoa pensa que é si própria, mas o carma que ela criou. Em outras vidas esse carma produz outras noções equivocadas de um eu, outros apegos a um eu que não existe — e essa é a base do sofrimento.

VÁRIAS EXISTÊNCIAS, DIFERENTES "CORPOS" - MAIOR OU MENOR SOFRIMENTO - MAS SEMPRE PRESENTE...

Através da prática de meditação, no entanto, é possível reconhecer as estruturas cármicas, algo até como um histórico delas, e assim reconstruir os outros apegos ao eu baseados nessas estruturas. Essas estruturas são individuais em certo sentido, mas boa parte delas é comum a certas experiências, como ser humano, falar uma língua, e assim por diante. Da mesma forma que o DNA, em que parte é propriamente individual, e parte é comum a espécie, à família, e assim por diante. Quanto mais fundo se vai na meditação, portanto, menos subjetiva ela é. O nosso fluxo ordinário é extremamente subjetivo até mesmo para nossa percepção ordinária, isto é, achamos isso e logo depois achamos aquilo. É mais que subjetivo, é quase aleatório. Já quando desenvolvemos estabilidade e claridade (abertura no "obturador"), os movimentos rápidos da mente ficam difusos, e as estruturas mais básicas, que formam certas características mais globais podem ser discernidas.

Agora, o objetivo da prática de meditação não é lembrar vidas passadas. A única utilidade de lembrar vidas passadas, para o budismo, é entender quão fúteis foram nossos esforços anteriores e não cometer os mesmos erros. Isto é, se focar mais urgentemente no dharma, e não nas atividades em que temos nos focado vida após vida e que não nos levaram a lugar algum.

Então há diferença entre o renascimento ou reencarnação (esta palavra inclusive sendo evitada de propósito) no budismo e no espiritismo. Há diferenças cruciais como 1) ausência da noção do eu; 2) ausência de uma evolução necessária (os renascimentos são chamados de "experiência cíclica" no budismo, a pessoa sempre melhora e piora, até a iluminação, quando ela não mais renasce — no espiritismo alguém não volta mais como animal, por exemplo — as conquistas intelectuais são definitivas. 

Não sei como eles explicam o alzheimer e outras doenças degenerativas — como a pessoa volta a ser inteligente? a inteligência deve permanecer latente no "perispírito" ou algum lugar assim, realmente não sei). Já no budismo é muito claro que toda conquista intelectual pode ser perdida nesta mesma vida, de um momento para o outro, e não é nada de especial; 3) renascer não é um conforto, não é uma continuidade do eu, pelo contrário; 4) o reino humano é o que mais possui oportunidade para a prática espiritual (outros reinos mais "sutis" não são melhores); 5) não se foca em questões familiares, de algumas dezenas de vidas e de um círculo restrito de pessoas, mas no fato de que todos já foram nossa mãe, gato, cachorro e papagaio, são vidas incontáveis e temos conexão com todos os seres;

Pode haver mais alguns itens, mas não sou profundo conhecedor do espiritismo. Sei que é uma doutrina recente, basicamente brasileira na atualidade, embasada em paradigmas científicos do séc. XIX e no positivismo da época. Não há métodos para o refino dos instrumentos epistêmicos, há o cristianismo como base de fundo, e é uma doutrina teísta.

Se nós fossemos comparar o espiritismo com o hinduismo também haveriam vários pontos a diferenciar, embora ambos acreditem na noção de um eu.

Como entender, com bases budistas, a manifestação de espíritos que "baixam" para se comunicarem, tão real para os médiums no Espiritismo? Seria apenas uma manifestação ilusória da mente? Teria algo a ver com o oráculo no Budismo tibetano?

O oráculo no budismo tibetano é semelhante. Outras formas de budismo não possuem "mediunidade", talvez alguma forma japonesa, mas não estou certo.

NECHUNG - um dos oráculos centrais do budismo
O importante é entender que, para o budismo, essa não é uma prática espiritual. A sabedoria do lama "encarnado" é maior do que a de seres de qualquer outro reino. Ele usa um médium que entra em contato com um ser sutil para receber respostas sobre questões práticas — qual a melhor rota para fugir do Tibete invadido, por exemplo. Nunca para questões de sabedoria e espiritualidade.

Como funciona, até onde eu entendo, nunca recebi explicações sobre isso, é que a pessoa tem uma fisiologia sutil que pode entrar em ressonância com uma outra fisiologia sutil. Mas nenhum ensinamento que eu li ou ouvi nunca mencionaram isso. Ouvi isso de um budista num congresso espírita que eu fui obrigado a comparecer porque era tradutor de um dos participantes. Na sala de prática mesmo, e no contexto budista geral, fora uma cena no filme "Kun Dun" do Martin Scorcese, e perguntas de visitantes espíritas, não parece ser algo que tenha importância para a prática.

Ah, mas todas as formas de budismo não tem problemas com "seres invisíveis". Quer dizer, para todas elas, eles existem. Só que são objetos de compaixão, como os seres visíveis.

19.1.12

Os "Unitários-Universalistas" - religião de wiccas, ateus, budistas e cristãos!

Algumas religiões não-históricas, ou seja, mais contemporâneas, se impõe por sua singularidade em relação a coisas tais como proselitismo, exclusivismo salvacionista e estratégias mercadológicas, que invadem esses tempos de neo-pentecostalismo exacerbado. Essas, obviamente, acabam alcançando maior popularidade. Em outras religiões, contudo...

Mirzá Husayn Ali
Esse ínterim não é regra. Aliás, eles são tão pouco comentadas que acho que até desistiram de qualquer forma de proselitismo. Manifestações religiosas "de peso" como a fé Baha´i e o Xintoísmo, por exemplo, são desconhecidas de 95% das pessoas que conheço. Quando falo esses nomes, o que recebo é ????????

A fé Bahai, por exemplo, se auto-denomina "uma religião mundial, independente, com suas próprias leis e escrituras sagradas, surgida na antiga Pérsia, atual Irã em 1844. A Fé Bahá’í foi fundada por Bahá’u’lláh, título de Mirzá Husayn Ali (1817-1892) e não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio". Qualquer um que lê um pouco sobre a fé Baha´i se "assusta" com sua abertura, compaixão e prática de uma religiosidade tolerante e bastante aberta. É uma forma de religiosidade muito interessante. Sua "abertura" e força sincrética tem sido alvo, inclusive, de ataques de grupos fundamentalistas, especialmente em países com o Irã. 

Outra religião com princípios semelhantes à fé Baha´i no que tange ao sincretismo e abertura religiosa é composta pelo grupo dos Unitários-Universalistas. Enquanto a fé Baha´i possui raízes históricas na mística islâmica, o Unitarismo-Universalista (UUismo) possui bases cristãs protestantes. O termo "Unitário" deriva das críticas ao conceito da Santíssima Trindade, que ganharam força com Servet ou Servetus, em meados do século XVI. Servetus foi queimado pela Igreja como herege. O termo "universalista" vêm de uma leitura onde todos podem ser "salvos", ninguém está previamente condenado por coisa alguma. Como se existisse um plano universal de salvação que incluísse toda e qualquer pessoa, e não apenas um grupo restrito.

O Uiismo é considerado uma exepressão religiosa, um "tipo de cristianismo", bastante liberal, e não recebe apoio das religiões cristãs mais tradicionais. Quando digo "liberal", entenda de maneira enfática. Veja:

1 - Você pode ser wicca e ateu e, ainda assim, ser UUista. Eles aceitam todas as crenças, inclusive a "não-crença";
2 - Os pastores podem ser bissexuais, transexuais, gays, etc;
3 - As músicas dos encontros podem ser pagãs e até Rock and Roll;
4 - Os feriados incluem desde o Yom Kippur até festas Wicca;
etc etc etc

Veja mais no site dos caras: http://www.uua.org/ (que é MEGA bem organizado!)

Símbolo do UUismo!
Os princípios centrais do UUismo são:

1 -  O valor e a dignidade de cada pessoa;
2 - Justiça, equidade e compaixão nas relações humanas;
3 - Aceitação um do outro e estímulo ao crescimento espiritual em nossas congregações;
4 - Uma busca livre e responsável pela verdade e significado;
5 - O direito de consciência e o uso do processo democrático dentro de nossos grupos e na sociedade em geral;
6 - O objetivo da comunidade mundial com paz, liberdade e justiça para todos;
7 - Respeito pela cadeia interdependente da qual todos somos parte;

É lógico que, como toda instituição, entra a parte da grana. E, nisso, os cara parecem bem profissionais. No site, há uma parte dedicada a toda estrutura administrativa. Além disso, você pode ter benefícios sendo UUista, como plano dentário e plano de saúde. A coisa é "profissa".

Então, fica uma breve apresentação desse tipo de "cristianismo" liberal. O que achou?