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10.3.12

Psicologia, ciência pós-moderna e espiritualidade: reflexões a partir das contribuições de Ken Wilber

por Bernardo A. Marçolla  - Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Psicólogo, Mestre em Psicologia Social (UFMG), Doutorando em Letras (PUC Minas), Pós-doutorando em estágio pela CAPES



Resumo

Tendo como pano de fundo a crise e os questionamentos surgidos no contexto da ciência pós-moderna, este artigo tem como objetivo discutir a ampliação da noção de sujeito tal como compreendida pela psicologia transpessoal, utilizando-se, para tal, das contribuições de Ken Wilber. Tal ampliação, que incluiria as dimensões de alma e espírito, estaria sintonizada e ancorada no diálogo com antigas tradições espirituais, o que nos leva a levantar a discussão acerca da importância do diálogo entre a psicologia e essas outras formas de saber.

Palavras-chave : Psicologia Transpessoal; espiritualidade; ciência pós-moderna



ARTIGO COMPLETO, AQUI

3.11.11

Afinal, a psicologia é uma "ciência"?

Texto original de Amandio Gomes, publicado na Revista do Departamento de Psicologia - UFF, v. 17 - nº 1, p. 103-111, Jan./Jun. 2005. Organização e tratamento do texto aqui, feito por mim!


Uma ciência do psiquismo é possível?
A psicologia empírica de Kant e a possibilidade de uma ciência do psiquismo



PSICOLOGIA RACIONAL E PSICOLOGIA EMPÍRICA

KANT
Nossa questão é inicialmente histórica, pois partimos de um veto formulado pelo filósofo alemão Emanuel Kant no século XVIII, no contexto de sua teoria do conhecimento, relativo à constituição da psicologia empírica como ciência. Interessa-nos aí apresentar as razões que levaram esse filósofo – que pretendeu estabelecer as condições de possibilidade de toda ciência – a negar à psicologia o título de legitimidade científica.

Entretanto, o “veto” kantiano à psicologia, não inibiu de fato os vários empreendimentos que visavam a uma ciência do psiquismo. Na verdade, já a partir do início do século XIX o que vemos é o florescimento de uma psicologia empírica que era, à sua maneira, uma continuação da revolução que fez surgir o mundo moderno. Essa “Revolução Copernicana”, que situou o homem no centro do universo, localizando nele as condições de possibilidade do conhecimento(1), deu-se não apenas à medida que considerou as condições relativas ao entendimento humano (preocupação evidente no racionalismo cartesiano e na filosofia transcendental de Kant), mas também à medida que investigava sua encarnação, na especificidade de sua constituição fisiológica(2), como demonstram nos trabalhos em psicofísica da primeira metade do século XIX.

WUNDT: o "pai" da Psicologia
Na verdade, é principalmente seguindo esse esforço inicial de se produzir uma ciência do psiquismo, ainda no âmbito da fisiologia, que surgirá a psicologia experimental, com W. Wundt, no final do século XIX. Apesar do veto acima mencionado, Wundt, que se dizia kantiano, funda a psicologia experimental rejeitando justamente a exigência de Kant a todo saber que se pretenda científico: a possibilidade de formalizar matematicamente seu objeto, conforme os princípios a priori do entendimento humano. A constatação de Ebbinghaus de que “a psicologia tem um passado longo mas uma história breve” (EBBINGHAUS, 1950 apud BORING, 1978), feita no final do século XIX, é válida ainda hoje. 

Em seu longo “passado” a psicologia sempre foi a “ciência” da alma, como indica sua etimologia. Já em Aristóteles, cuja teoria do conhecimento realista opõe-se à metafísica do supra-sensível, a psicologia era a ciência da “forma” do corpo, isto é, de sua organização. Em outras palavras, embora não fosse uma realidade supra-sensível, a alma se distinguia do corpo, sendo dele sua forma, seu princípio de organização.

A “história” da psicologia nos revela um esforço de distinção entre uma ciência do psiquismo e uma psicologia metafísica, dogmática, ao lado da teologia e da cosmologia. Denominada “Psicologia Racional” pela tradição metafísica vigente até o século XVIII, ela tinha por objeto a alma ou substância espiritual, cuja realidade supra-sensível não poderia então permitir uma abordagem pela via da experiência. E era justamente a experiência, a experiência sensível, comum a todos os homens, que garantiria a possibilidade de a psicologia, como a física, ser objetiva.

Seguindo a “Revolução Copernicana”, a psicologia devia poder se sustentar na experiência e constituir-se, assim, como conhecimento objetivo, e abandonar as ilusões metafísicas da Psicologia Racional, que podiam se sustentar nos dogmas da filosofia escolástica. Claramente a psicologia, desde o século XIX até nossos dias, é então psicologia experimental, distinta da psicologia metafísica pelo voto de constituir-se como ciência. “Psicologia Científica”, era o que significava para Wundt a Psicologia Experimental, cuja história se inaugura
simbolicamente com seu primeiro laboratório em Leipzig em 1879, o Psychologisches Institut. Cabe lembrar que a distinção entre psicologia racional e psicologia empírica já havia sido feita por Christian Wolff – cuja obra Kant conhecia tão bem e que por muito tempo foi tema de seus cursos.

Para Wundt, "Psicologia científica" = "Psicologia experimental"

Mas foi o próprio Kant que, apesar do veto posterior, viria a preparar efetivamente o solo para a psicologia experimental. Foi esse filósofo da remota Könisberg que mostrou que a psicologia podia de fato se apresentar como sustentada na experiência sensível. No lugar de uma alma transcendente, fora do mundo da experiência, o objeto da psicologia de Kant é um “eu” empírico, ou fenomenal, um objeto na mesma série dos objetos na natureza.